Doeu na alma

Sabe pavor de agulhas? Pavor mesmo, de chorar por ter que fazer exame de sangue de tanto nervosismo? Era o que eu tinha desde criança. Meus pais não quiseram furar minhas orelhas para pôr brincos quando era bebê, eu já tinha uns 6 anos quando criei coragem e lembro muito bem daquele dia, me dá um frio na barriga só de pensar.

Então imagine quando minha médica me disse: "Querida, 315mg/dL não é uma pequena alteração, você tem diabetes."

Eu só pensava: "Meu Deus, agulhas, agulhas, agulhas".

Antes de mais nada, ela me apresentou um aparelhinho e disse, vamos medir a sua glicose agora: não recordo o número que apareceu, mas lembro que não era uma glicose de uma pessoa com o pâncreas em plena atividade, foi aí que ela me apresentou a tal insulina de caneta. Eu não conseguia nem entender o que ela falava, era tanta informação para a minha cabeça, mal tinha conseguido processar o fato de ter diabetes, pensa entender de insulinas!

Saí do consultório com a bendita caneta de insulina (a agulha eu teria que comprar na farmácia, bem como o aparelho de medição de glicose), era tanta coisa acontecendo, meus familiares me ligando, minha chefe preocupada tentando falar comigo, e eu só tinha um pensamento: agulhas, agulhas, agulhas.

Fui com meu pai na farmácia comprar os insumos básicos de um diabético, incluindo as temidas agulhas. Almocei (entenda como engoli a comida), parecendo que tinha voltado de um enterro, só chorava pensando na barra que ia ter que enfrentar. O que eu queria mesmo era ir pra casa dos meus pais, me enrolar em uma coberta e chorar o resto do dia, porém eu tinha uma reunião importante na empresa, liguei para minha mãe e ela disse: "Vai trabalhar sim filha, a vida segue, não adianta ficar em casa chorando". Tenho certeza de que ela disse isso com um nó na garganta, pois ela queria que eu fosse pra casa chorar no colo dela, entretanto, ela estava certa, a vida segue.

Então lá foi eu para o escritório com a insulina e as agulhas. Entrei e fui direto para o banheiro, li todo manual da insulina, levantei minha blusa, medi os dois dedinhos de distância do umbigo e injetei a agulha. Juro, eram só 4 unidades, mas parecia 600 de tanta dor que senti. Doeu na minha alma, apertou meu coração e lá veio o choro de novo.

Pela manhã, na consulta com a endócrino, ela recomendou que eu ligasse para uma orientadora do programa Alcance da VidaLink, essa mulher me ajudaria a entender melhor o tratamento. Liguei e combinei de ela ir até meu escritório para conversarmos.

Agradeço até hoje pela minha médica ter me indicado ela. Era uma mulher de uns 35 anos, que era diabética desde os 20 e tinha uma filha de 4 anos.

Ela me deu um aparelho de medição de glicose, uma caneta permanente para a Lantus e fez toda a orientação de aplicação de insulina. Ela tinha uma caneta que continha água dentro, então ela fazia eu aplicar em uma esponja como se fosse em mim mesma, pra entender que:

- o ângulo deve ser sempre de 90º

- tem que esperar no mínimo 20 segundos para tirar a agulha

- nunca devemos aplicar por cima da roupa

- devemos fazer rodízio dos locais de aplicação (barriga, coxas, braços e bunda)

- a agulha só deve ser usada uma vez (sim, uma vez, por isso são chamadas de descartáveis)

- toda insulina tem validade de 28 dias a partir do primeiro uso dela, não adianta ficar usando que ela perde seu efeito (isso é comprovado e experimentado por mim mesma)

Foi uma benção a visita dela, porque ela tirou todas minhas dúvidas e ainda me contou sobre a vida dela, o que me confortou bastante. Vi que eu poderia aguentar essa barra, ela era super positiva e disse que me ajudaria sempre que eu precisasse.

Não digo que as outras aplicações de insulina não tenham sido tão doloridas quanto a primeira, até porque depois de muito tempo descobri que não se deve aplicar a insulina gelada, primeiro porque dói muuuuito, segundo porque ela perde o efeito. Foram meses tirando ela da geladeira e aplicando direto no corpo (pequena gênia).

São essas pequenas informações que vamos aprendendo e que melhoram muito nosso tratamento. Então sempre que algum diabético ou não diabético pergunta onde eu aplico a insulina, eu explico todo o processo de aplicação - primeiro para não acharem que é esse bicho de sete cabeças, segundo para levar essas ricas informações para outras pessoas. E para minha surpresa, não foi um ou dois que não sabiam do revezamento de locais de aplicação ou até que a insulina pode ser aplicada em outros lugares que não a barriga.

Então quando vi esse vídeo foi feito pela Mônica Lenzi, do blog Diabetes & Você, achei muito legal e muuuuito útil para todos os diabéticos, por isso resolvi compartilhar aqui. É como sempre digo, os piores erros do diabético são a desinformação e o descaso: não saber aplicar direito a insulina e não medir a glicose sempre depois de comer.

Hoje não tenho mais problemas em fazer a insulina, já aplico com uma mão enquanto digito no computador com a outra. O que minha orientadora falou naquele dia se tornou verdade: "Você vai ver que logo isso vai estar na sua rotina e quando se der conta vai ser parte do teu dia a dia."

Sincerão? Tem vezes que arde bastante, mas isso não vai fazer com que eu desista do tratamento.

Porque eu escolhi viver!

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© 2017 por Daniela Olmos